
Feirantes unem carisma e tecnologia e reinventam segmento tradicional do comércio brasileiro
As feiras livres são um patrimônio histórico e cultural do Brasil que segue resistindo às mudanças sociais e tecnológicas. Mais do que resistir, muitos feirantes vêm incorporando a tecnologia ao dia a dia, ampliando a carteira de clientes e usando as redes sociais para divulgar o próprio trabalho.
“A busca por ferramentas digitais deixou de ser uma tendência para se tornar uma das principais estratégias de sobrevivência e aumento de faturamento para as microempresas e o MEI. No caso das feiras livres, um dos setores mais tradicionais do país, essa transição tem papel ainda mais vital”, comenta Ivan Tonet, gerente-adjunto de Acesso a Mercados do Sebrae.
Para ele, o feirante possui vantagens competitivas naturais, como a capacidade de conexão humana e o carisma. A introdução de ferramentas digitais, em vez de descaracterizar essa essência, a fortalece. “Quando o feirante adota o WhatsApp, além de responder mensagens, ele pode criar listas de transmissão personalizadas e agendar entregas, oferecendo comodidade”, afirma.
Do WhatsApp à fidelização
É o caso de Fábio Caetano de Oliveira, que há 37 anos trabalha em feiras livres das zonas Norte e Sul do Rio de Janeiro. Antes da pandemia, ele já havia criado um serviço de entregas por WhatsApp; durante a crise sanitária, o atendimento se multiplicou.
“Ganhei muito dinheiro. Precisei contratar um motoqueiro para dar conta das entregas. Eu ouvia muito dos clientes: ‘Você é minha salvação’”, conta ele, que, mesmo após o fim do lockdown, manteve cerca de 70% da clientela virtual, que recebe semanalmente frutas, legumes e hortaliças em casa.
“Hoje a maior parte dos clientes do WhatsApp são pessoas que moram sozinhas e não têm tempo de ir à feira. Muitos idosos também. Só no meu celular tenho mais de 1.400 contatos”, diz o feirante, que segue cultivando o contato direto nas feiras de terça a domingo. “Tenho clientes que me acompanham desde que comecei, quando era adolescente. São gerações de pais, filhos e netos que confiam no meu trabalho”, revela.
Da feira livre para o Brasil e o mundo
Nas feiras livres é comum ouvir bordões, piadas, músicas e rimas para atrair a clientela. Alguns feirantes aproveitam a tecnologia para divulgar o próprio talento. É o caso de Jorge Henrique, conhecido como o Samurai da Feira, que anima os clientes do subúrbio carioca com músicas bem-humoradas e a habilidade com o facão para cortar frutas.
“Com meu jeito espontâneo e brincalhão, eu sempre cativava os clientes. Aí, do nada, um amigo disse: ‘Vamos gravar isso’. Eu topei, nem imaginando que ia dar em algo. O meu primeiro vídeo, quando saiu, teve mais de 2 milhões de visualizações. Fiquei até um pouco assustado”, conta Jorge. Depois disso, um DJ colocou uma batida em uma de suas músicas e o Samurai da Feira viralizou.
“O negócio explodiu. Fui tocar em todos os cantos do Brasil e fora também. Foi uma virada de chave, porque eu já não tinha mais expectativa nenhuma”, relata. O sucesso o levou a programas das principais emissoras de TV e a reunir 164 mil seguidores no Instagram. Hoje, além de feirante, ele também é criador de conteúdo digital, o que rende parcerias eventuais, mas sua principal fonte de renda continua sendo a feira.
“Com a ajuda da rede social, consegui construir minha casa, tirar habilitação e conquistar meu carrinho. Hoje sou pai de três filhos e sustento minha casa com a feira”, conta Jorge, que vem de uma família de nove irmãos e trabalha desde a adolescência.
Segundo Ivan Tonet, esse é justamente o caminho para atrair novos públicos. “Ao utilizar o Instagram e o TikTok para mostrar os bastidores da operação, a montagem da banca e a qualidade do produto fresco, ele gera valor e conexão emocional para atrair um público mais jovem, que muitas vezes troca a feira pelo supermercado de rede”, afirma. Jorge, por sua vez, orgulha-se de repassar o aprendizado aos colegas: “Consegui ensinar outras pessoas a cortar o abacaxi, a melancia. Modernizei muitas feiras no Rio de Janeiro”.
Fonte: Com informações de Agência Sebrae


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